Sunday, September 17, 2006

Darwin e os esqueletos da humanidade

Não é bonito nem excitante descrever uma cronologia do debate entre o Criacionismo e o Evolucionismo. Que conforto poderíamos retirar da frieza das datas? É, contudo, certo qual das duas teses chegou primeiro. Se a antiguidade é um posto, então sejamos no mínimo benevolentes com as pretensões dos criacionistas. Eles andam cá desde o início.
A autoridade que me compete para a escrita destas linhas é absolutamente questionável. Sou um cristão evangélico baptista amamentado na crença do relato do Génesis. Os leitores sabem ao que vão. Devo todavia, e a bem de uma tímida salvaguarda da minha posição, informar que me formei na Faculdade de Ciências Socias e Humanas de Lisboa (aquela da reluzente paliçada metálica da Avenida de Berna). Como poderá ser observado mais adiante, este facto biográfico essencial na minha (de)formação torna-se precioso para os parágrafos que seguem.
A Europa sente em relação à América um vazio do tamanho de Deus. Só esta assunção explica a surpresa com que o Velho Continente viu ressurgir o debate sobre as origens da vida. Se é certo que as debilidades do Criacionismo passam tão somente pela sua necessidade de existir quanto movimento (o Criador deveria ser poupado do embaraço de ver o reconhecimento da sua criatividade dependente da defesa que as suas próprias criaturas lhe prestam), também é verdade que somente um francês demasiado adormecido à sensibilidade religiosa do país mais competente do mundo (os EUA, os EUA) pode admirar-se com o vigor académico do Design Inteligente. Este novo termo foi um passo, como o nome indica, inteligente. Até porque os leitores devem já saber que sustentar o Design Inteligente não é o mesmo que sustentar a interpretação científico-literal do relato do Génesis. Mas para isso terão de ir investigar no Google. Falta-me o vagar e o pernicioso conhecimento técnico para penetrar em semelhantes matérias. A minha abordagem, como qualquer protestante que se preze, é a do testemunho. Let me testify, brothers and sisters.
Uma das primeiras acusações que devo apontar a Darwin é o facto de ter abandonado a Teologia a favor da Botânica. Coloca-o na família dos ex-seminaristas, uma espécie que nunca conheceu evolução. Pessoas que ficam a meio da sua vocação deixam sempre coisas por arrumar nos seus futuros. Um religioso que abandona a Teologia tem na maior parte das vezes um motivo sensual forte. No caso de Darwin foram os besouros. Abandonar a Teologia por causa de uma mulher suscita solidariedade. O que diremos em relação ao abandono da Teologia por causa de insectos? Mesmo que se tenha verificado grande margem de progressão no objecto de estudo de Darwin, o critério rastejante da sua permuta académica é incontornável. Da sacristia para a bicharada, portanto. É numa viagem a bordo de um barco com nome de cão, o Beagle, que se alcatroa a satânica estrada de Damasco de Charles. Com Charles Darwin embarcou o Ocidente na pronta aceitação dos esqueletos da humanidade. A condição em que Darwin nos deixa é, novamente, canina. O que nos legou ele? Ossos.
A partir desse momento sob a teoria da evolução pesou explicar como é que um macaco se faz um homenzinho. Tarefa que cumpriu com bastante competência. A ponto de alguns séculos depois o Ocidente aceitar quase consensualmente a genealogia simiesca. O problema são as aldeias gaulesas. A resistência criacionista, deveras amachucada por um Século XIX severo com o pensamento religioso, foi reagregando-se. Tirando cursos superiores e apanhando as pontas soltas do discipulado de Darwin. Todo o Século XX foi empregado a diversificar hermenêuticas ao texto bíblico e lendo as instruções de uma coisa qualquer importante para o tema que tem a ver com o carbono. A década de oitenta, mas sobretudo a de noventa, traz um novo plantel à equipa. E com orçamento reforçado (há quem acuse que os avanços criacionistas resultam de um financiamento suspeito por parte dos sectores americanos mais conservadores).
Já se tornou evidente uma aversão por Darwin nestas linhas. Corrige-se. Por darwinistas. Esclarece-se, todavia, que o criacionismo do autor deste texto é objector de consciência. Não entra em guerras. Parece-me desagradável levar preocupações científicas ao texto bíblico. Se quisermos ler a Bíblia como o National Geographic nada nos impede de qualquer dia a lermos como o livro de Pantagruel. Uma má receita. Isto não significa, de qualquer modo, que não possa haver o índice de consistência científica pelo qual os criacionistas puros e duros (os que harmonizam os sete dias da Criação com os eventos factuais da origem do mundo) se batem. Sou a pessoa errada para defender com competência o Criacionismo na imprensa respeitável nacional. Logo a pessoa acertada para vos escrever este texto.
É aqui que surge a importância do meu passado académico. Trouxe da Universidade Nova de Lisboa uma licenciatura da qual herdei alguma indiferença perante as habilitações filosóficas do pensamento científico. Pacheco Pereira tem razão quando se queixa da preguiça da luso-intelectualidade em relação ao domínio dos conhecimentos exactos. A culpa é dos Eduardos Prados Coelhos dos nossos quintais académicos (curiosamente um dos meus professores preferidos). Numa segunda metade do Século XX ressacada das excentricidades da Ciência tornou-se confortável uma dose mínima de moleza pós-moderna. Galileu podia ter toda a razão mas não é por isso que deixa de ser um chato. O que se perde em rigor ganha-se em joie de vivre.
Um dos aspectos mais débeis do Evolucionismo é redundar apenas em pertinência. Rejeita uma ideia de intencionalidade biológica em prol de funcionalidade física. O Universo torna-se uma frase em que o sujeito é devorado pelo complemento directo. Esqueceram-se que no Princípio era o Verbo. Não dá para queimar etapas. Nesta gramática canibal os fenómenos prolongam-se sem afectos. Os darwinistas trocaram o velho barbudo que criou amorosamente o Planeta Azul por um grande acaso com tiques de governanta alemã. Mas o impulso primordial para a sobrevivência não subsiste hoje sem dificuldade. A sustentabilidade do enredo é precária e não cria empatia nos leitores. Em último reduto o antagonismo entre o Criacionismo e Evolucionismo resolver-se-á através de uma questão de critério na escolha de narrativas. Que tipo de civilização desfralda com orgulho a bandeira de uma grande explosão aleatória como acontecimento inaugural? Não é bonito tratar o cosmos como o rebentamento de uma bilha de gás.
Aos darwinistas não convém o optimismo. O planeta vai para o maneta por isso Deus deve ser despedido por incompetência grosseira. Quão mais ateu o espírito mais ecologista será. Só quem já desistiu de salvar a sua alma pode ocupar-se da missão de salvar o mundo. A estratégia torna-se simples: a certeza do esgotamento dos recursos naturais pressupõe a ineficácia da intervenção divina. Como quem diz, já ninguém tem mão nisto, nem mesmo Ele. Logo a responsabilidade permanece em exclusivo no discernimento humano e por isso o futuro é negro. A menos que evoluamos. O pessimismo biológico dos darwinistas torna-se o pretexto para colocar sobre os ombros dos homens a hipótese de uma redenção cósmica. E alcançar a desforra final sobre o monopólio celeste da Salvação.
Os cristãos deviam pôr água na fervura. Mas pressionados pela necessidade de ser bons mordomos da Criação têm esquecido que, por muitas imagens de catástrofes naturais que coleccione, ainda não é Al Gore o sustentador da esfera terrestre. Uma das falhas tem sido deixar na ribalta apenas os criacionistas a falar sobre o Princípio. Torna-se imperativo equilibrar a situação através de bons cristãos a falar sobre o Fim. O bom cristão deverá relembrar que é Deus quem ainda manda na geringonça. E que ela só avaria se Ele permitir. Na verdade e apesar de na aparência debatermos as bases dos primeiros eventos, o que todos desejamos é vender as nossas teses sobre o Apocalipse. A única concórdia é sobre a necessidade de o guião colocar no último episódio muito pranto e muito ranger de dentes. Os fiéis pela via da impenitência dos pecadores, os darwinistas pela incontinência dos consumidores.
Os darwinistas arreliam-se. Com cada letra criacionista publicada, com cada dólar investido na defesa do Design Inteligente, com cada Liceu americano que ousa colocar o bom Charles lado a lado com o Bom Deus. Como contornar o facto que os darwinistas se têm tornado nas últimas décadas pessoas apreciavelmente desagradáveis? Até porque o único argumento filosófico que oferecem para o convívio humano é a sustentação de um equilíbrio mínimo na realpolitik que impeça o prematuro aniquilamento da raça. O darwinista é o que sobra de um Hobbes sem crença na Eternidade. A melhor pedagogia para os darwinistas não é sequer convertê-los ao cristianismo. Ensiná-los a divertir-se já seria óptimo. Descontrair. Respirar fundo. Enquanto há ar.
O darwinismo começa a soçobrar. Não é casual que nos últimos tempos o seu maior progresso seja apenas poético e uma tentativa de amenizar a frieza espiritual dos primatas. Falo do filme "King-Kong". A história de um macacão que se apaixona, o relato de um bruto que se surpreende perante a existência dos sentimentos, um símio e uma humana numa vertigem erótica sem viabilidade de prolongar a espécie. Precisamos de devolver o coração aos esqueletos da Humanidade.

Tuesday, April 04, 2006

O portageiro

Quando o Ocidente era mais religioso a morte era mais literária. Nas explicações que os autores arranjavam para a crença no sobrenatural sobrava espaço para a criatividade. A pessoa morria e encontrava um barqueiro que a levava num batel até ao outro lado do rio. O Além até podia perder o corpo mas não perdia a piada. O defunto passava deste para outro mundo cheio de personagens extravagantes, julgamentos assustadores e destinos exóticos. O que seria da nossa pintura sem o Céu e o Inferno? Um amontoado de naturezas mortas. Frutinha a apodrecer. Hoje deixámos de acreditar em Adão e Eva porque já não sabemos arrancar maçãs das árvores.
Num mundo sem barqueiros o prazer de viajar muda bastante. O máximo que me consigo relacionar com a velha história do batel acontece quando passo nas portagens. E embora o portageiro pouca ou nenhuma influência exerça sobre o rumo que levo a verdade é que o seu efeito simbólico resulta muito bem nesta cabeça demasiado propensa à metafísica. Nos meus sessenta quilómetros diários já encontrei de tudo. Afeiçoei-me especialmente a três: a trintona anafada ultra-sorridente, o sisudo de meia-idade que perdeu a língua, e o pós-adolescente noctívago que esconde os olhos por detrás de uns óculos de sol que, estou certo, já nasceram com ele. De cada vez que lhes pago os trinta cêntimos e eles me permitem prosseguir relembro a lendária travessia do rio.
O portageiro não é pago para fazer amizade com o cidadão auto-mobilizado. Por isso nunca trocámos postais no Natal. Mas ainda assim custa-me que o sisudo de meia-idade que perdeu a língua não responda aos meus bons-dias. Já com a trintona anafada ultra-sorridente é o oposto: debaixo da sobredose de simpatia imagino-a solitária e na esperança que toda aquela boa-disposição lhe angarie um noivo. Despeço-me dela triste por tão violenta alegria. Por último ao pós-adolescente noctívago que esconde os olhos por detrás de uns óculos de sol que, estou certo, já nasceram com ele a maior intimidade que partilhei foi acordá-lo em pleno posto de trabalho. Rememoro. Nove e pouco da manhã. Cabeça pendurada na janela. Buzino duas vezes. Disse-lhe “boa noite”.
Ao fim de alguns anos de carta de condução resisto à Via Verde. As portagens na sua lentidão oferecem espaço aos sentimentos. As portagens são no Século XXI um dos locais mais românticos para a triste vida racional do condutor impaciente. Nelas poderá reencontrar a literatura. E o inexplicável mistério do Além. Ninguém passa por um portageiro e fica na mesma. Do outro lado da portagem o nosso destino já mudou.

Tuesday, March 07, 2006

Manifesto contra os cidadãos transparentes

A vida de um homem não é um livro aberto. Para isso Deus tinha-nos dado páginas em vez de braços. Esconder-se é das actividades mais caras à humanidade. Até a criança de 21 meses que habita o mesmo T2 que eu aprendeu a graça da brincadeira. Oculta-se atrás das portas, debaixo dos cobertores, para lá das cortinas. Qualquer canto serve para desaparecer dos olhos dos pais. Para a encenação ser completa devemos perguntar por ela. Só então surge no nosso horizonte, radiante em toda a sua glória aparecida.
Escondemos sempre alguma coisa. Da mulher, dos pais, do Estado, do próprio Criador. E não precisa de ser algo escabroso. Nem só de infidelidades conjugais, cigarros prematuros, impostos por pagar e ausências na missa vivem os nossos delitos. Acarinhamos na infracção sobretudo o facto de ser secreta. Quando as transgressões perdem a privacidade deixam de ser transgressões para passar a ser excentricidades. E a verdade é que mais facilmente nos comovemos com um pobre transgressor do que com um excêntrico estridente. A falta privada faz parte da saúde mental do cidadão.
A crise da nossa sociedade é que ao desculpar tudo colectivamente acaba por retirar o gozo ao erro privado. Quem quer uma professora que aprova qualquer resposta? Quem quer um exame de escolha múltipla em que toda a hipótese é considerada correcta? A maior injustiça que nos pode ser causada é afirmar que qualquer coisa que façamos está bem feita. Que não há mal possível. Que a moral está nos olhos de quem a vê. Não é certo que a malvadeza seja minimizada em todo o seu esplendor estético. Levem-nos tudo. Menos o privilégio de podermos errar. E escondermo-nos enquanto o fazemos.
Não se glorifica aqui o pecado. Glorifica-se apenas o privilégio de podermos pecar. A existência de muita gente que não acredita no conceito de pecado só comprova a veracidade de uma grande conspiração contra o prazer de pecar. Começam por retirar-nos o pecado. A seguir retiram-nos o Diabo. Por fim retiram-nos Deus. Acabaremos despidos de tudo. De vícios e de religião. Não pode ser.
Para dar sumo a este texto resolvi partilhar com os leitores uma pequena transgressão. Ou melhor, parte de uma (devemos sempre deixar algo encoberto). É coisa inexpressiva. Nada que faça as delícias do Inferno. No entanto cumpre os requisitos de ser ilegal e de ter sido executada às escondidas. Reúno duas maldições: uma bexiga com pouca capacidade de armazenamento e o hábito de levar o carro para Lisboa. Juntando um parque de estacionamento subterrâneo sem casas de banho consegue prever-se a índole do meu pecado oculto. Afinal de contas é um local cheio de cantos escuros e sem grande movimento popular.
Esta é uma causa urgente, caros leitores. Apelo pela sobrevivência das nossas transgressões no seu conveniente habitat de sigilo. Mas acima de tudo apelo pelo futuro dos nossos filhos. Deixai as criancinhas jogar às escondidas em paz. Os homens de amanhã não precisam de ser transparentes.

Monday, February 20, 2006

A nobre arte de comer restos

Proponho uma nova especialização no âmbito da gastronomia. Temos os vinhos, a lista de restaurantes aconselhados, as receitas nos suplementos das revistas. Falta-nos a nobre arte de apreciar restos. Comida requentada. A vida para além da morte do banquete. Mais do de útil pode tornar-se pedagógico. Em tempos de déficit cultivar a nobre arte de apreciar restos pode estimular a economia nacional. Pode perfeitamente ser um acto patriótico. De uma penada revigorar a poupança e a competitividade.
Quase sempre que se fala de mesa fala-se de finança. Não há cifrões sem feijões nem feijões sem cifrões. Esta relação que aproxima o prato da carteira existe desde que o homem é homem. E se é certo que a vida humana não se resume à comida e ao dinheiro é também certo que uma vida humana sem comida e dinheiro encontra-se resumidíssima e sem grandes oportunidades de se expandir. A autonomia do cidadão avalia-se quando não depende da mãe para desfrutar da merenda no intervalo para o almoço.
Quis a Providência fazer da minha boca uma boca humilde. Não que não aprecie um bom repasto, simplesmente sei que fico sempre aquém de usufrui-lo: não consigo comer demasiado, ao terceiro copo de vinho começo a cantar "A Mula da Cooperativa", à altura da sobremesa já arroto as entradas. Recordo uma ocasião que num ilustre restaurante de Évora descalcei quase dez contos de reis por um almoço. No final sobrou-me a azia. Não pelos condimentos mas pelo investimento sem retorno. O que comera valia uns dois contos quando muito. Os restantes sete e meio foram beneficência ao estabelecimento.
Há vantagens em não ser grande comensal. A maior parte dos meus amigos já exibe nos vintes o ventre dos trintas. Eu nos vintes ainda exibo o ventre da adolescência. Sou magro que nem um cão. Cão cheio de sorte, neste caso. Há outra vantagem. A minha filha tem um DVD que canta a história do velho Rei com uma grande barriguinha. O tema é filosoficamente irrepreensível: todos eram seus amigos por interesse. Ninguém é amigo por interesse de um cão magro. O cão magro, se quiser, é que pode ser o melhor amigo de quem escolher.
Restam-me os restos. Que se comem por respeito com o que no dia anterior foi objecto de salivação. Os restos exigem-nos respeito. Não exibem a aparência e a frescura de outrora mas ainda cumprem em termos nutricionais. Comer restos é um poderoso exercício contra a vaidade. Concentra-nos na essência. Torna-nos pragmáticos, imperturbáveis em cumprir o solitário objectivo de comer. A nobre arte de apreciar restos tornará o país mais profissional. Equilibrará o fatal desequilíbrio entre os olhos e a barriga. Deixar-nos-á mais finos mas com menos miopia. A classe e a visão são uma questão nutricional. É preciso deixar a conversa chegar à cozinha.

Wednesday, February 08, 2006

Os maridos da culpa

É mentira essa história da culpa morrer solteira. A culpa tem sempre com quem casar. A Elizabeth Taylor ao pé da culpa é uma virgem tímida. Seriam necessários muitos Pavilhões Atlânticos para albergar apenas alguns dos maridos da culpa. O mundo teria de se devotar eternamente à construção civil para poder acomodar dez por cento destes esposos dedicados.
Quem são os maridos da culpa? Pergunta inocente, reconheçamos. O enredo começa no Génesis. É curioso que nesta perspectiva histórica Eva tenha sido a segunda mulher de Adão. Embora a Bíblia não o escreva abertamente, está implícito nas entrelinhas. O primeiro casamento de Adão é com a culpa, pois claro. Provou do fruto que não era suposto provar. Disse o "sim". A associação de bodas a jardins vem da prosperidade matrimonial do Éden: ainda mal a Terra havia sido criada e já o primeiro homem casava duplamente. A partir daí a condição generalizou-se. A lição teológica é simples. Todos somos culpados.
Hoje a culpa deixa-se no museu. É um conceito ultrapassado e insustentável, confirmam os especialistas. Fazia sentido no tempo em que os animais falavam e os homens se arrependiam. Agora todo o cidadão diz à boca cheia que não se arrepende de nada e se voltasse atrás faria do mesmo modo. O arrependimento é exclusivo das mentes impressionáveis, parece. O arrependido está entalado numa concepção retrógrada e medieval. Trancado num alçapão da máquina do tempo. Quem puxou o ferrolho foi a moralidade judaico-cristã, essa preceptora severa.
A vantagem de quem aceita a culpa é evidente: sabe com quem está casado. Suporta os caprichos da esposa, oferece-lhe flores de quando em vez, leva-a ao cinema e a jantar fora. Aprendeu a viver com ela e até tomou até o seu nome. Fulano de Tal Culpado. Fez-se feliz resignado. Todos os outros, provavelmente com padrões sociológicos mais sofisticados, permanecem sós. Solteiros, folgazões e ambiciosos. De cada vez que a culpa aparece conseguem desembaraçar-se dela. Ela vai aguardando no altar. Sabemos que o seu negócio é a persistência. Ainda está para nascer o homem que a vença na teimosia.

Tuesday, January 24, 2006

Os dedos rígidos de Eugénio

Eugénio é um sexagenário brasileiro que está em Portugal há meia dúzia de anos trabalhando na construção civil. Aos sessenta é normal procurar outro sustento mas este foi o que serviu e para um emigrante não há tempo para salamaleques. Eugénio frequenta a minha igreja e um dia abeira-se e diz que quer aprender a tocar viola. Eu, que já dava umas lições a um par de adolescentes, não tenho como recusar o desejo. Com a mesma estranheza que encarei o projecto tratei de marcar a primeira lição.
Eugénio é um negro da Baía com um bigode grisalho perfeito. A pele das mãos é áspera pelos rigores da jorna nas obras o que torna árdua a tarefa de calcar com os dedos as cordas da guitarra. Uso o esquema do costume: ensino um cântico com três acordes e mando repetir até à tendinite e afonia. Andamos meses seguidos concentrados nessa única canção. O tropeços rítmicos iniciais vão-se moderando e a destreza manual aumenta. Nunca teremos um virtuoso do flamenco e escusa o Caetano Veloso de perder o sono. Eugénio, todavia, passa para a segunda cantiga.
Ao fim de uns meses largos Eugénio toca três temas. Em Dó, Sol e Lá. A coisa compõe-se. No Brasil o filho marca o casamento e em seis anos de ausência em solo pátrio surge a ocasião de Eugénio regressar. Alegria pura. No último Domingo que Eugénio está connosco na igreja dirige umas palavras à congregação. Agradece a hospitalidade e aproveita para explicar que as lições de guitarra que teve serão muito úteis entre os seus amigos no Brasil. Há sempre muita vontade de cantar e não há quem acompanhe. É irónico que um país musicalmente tão superior ao nosso seja beneficiado por umas dicas mal amanhadas que por cá se aprenderam.
Eugénio nunca me justificara a sua determinação em aprender a tocar guitarra. Suspeitei de capricho, crise de terceira idade ou simples entretenimento à solidão. Limitei-me a cumprir um papel impacientando-me frequentemente com a lenta velocidade de um sexagenário a arranhar seis cordas. A boa-educação que os meus pais me ensinaram e o respeito por quem está longe do seu lar impediam-me de desertar daquela batalha semi-harmoniosa.Eugénio vai embora esta semana. Não sabe se volta. E eu não sei se voltarei a ter o privilégio de colocar os dedos rígidos do Eugénio nas cordas certas da guitarra pela septuagésima vez seguida.

Sunday, January 08, 2006

Os escanifrados na manjedoura

Quase tão consensual quanto festejar o Natal é hoje dizer mal dele. Qualquer cidadão exprime o desgosto pela quadra ter perdido o seu verdadeiro sentido. E a ironia é que provavelmente os queixosos constituem já a maioria. O que significa que em vez de matar a sede nas próprias lágrimas está nas suas mãos salvar o carácter da festa. A minha convicção pessoal é que mais facilmente o Menino Jesus atura um pagão indiferente ao 25 de Dezembro que um santinho queixinhas.
Tudo o que é bom na vida pode ser estragado. É um dogma mesmo, caros leitores. Esta virtude pertence também ao Natal. Se não pudesse ser estragado o Natal não seria uma festa mas uma obrigação. Uma comemoração pode sempre dar para o torto: a noiva não aparecer, o aniversariante ser atropelado, faltar a água na pia baptismal. No entanto nenhum destes contratempos elimina o significado do evento em causa. O nascimento do Salvador pode trazer à tona o quanto as cunhadas embirram, pode deixar o Colombo a abarrotar, pode intoxicar as crianças de brinquedos. Mas de modo algum seria justo entornar queixumes sobre o bebé nas palhas deitado, nas palhas estendido. As cunhadas, os consumidores e as criancinhas que batam à porta de outro presépio.
De cada vez que ouço uma alma lamentar-se pelo consumismo cresce-me nas entranhas uma vontade indomável de naufragar em compras e cartões de crédito. O que diria esta casta gente se a maior festa cristã em vez de ser uma época de mesas fartas fosse um apelo ao jejum? Duvido que sorrissem escanzelados. Parece-me bem que as pessoas ganhem alguns quilos no feriado religioso mais importante do Ocidente. Há muito tempo ao longo do ano para abstinências e dietas forçadas. O Deus da Bíblia não é para fuinhas.
Mais do que ter a barriga cheia a população gosta de parecer venerável aos olhos dos seus vizinhos. Sonham secretamente com o dia em que serão reconhecidos como a reencarnação de São Francisco de Assis. Eu, que gosto bastante de feriados religiosos, dou-me melhor com os pagãos que neles meramente descansam do que com os apóstolos que os querem moralizar. O Natal bem que pode ser todos os dias desde que os seus purificadores mudem de religião.